Onde está a Misericórdia?

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No dia 8 de Dezembro de 2015, Na festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, o Papa Francisco abriu a Porta Santa. Proclamava, assim, o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. O Santo Padre também nos deixou um magnífico escrito, contendo reflexões e orientações para viver intensamente este Ano Santo, que terminará na festa de Cristo Rei do Universo, no dia 20 de Novembro. Neste seu rico ensinamento com o título Misericordiae Vultus (O rosto da Misericórdia) o Papa nos mostra como “com suas palavras, os seus gestos, e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a Misericórdia de Deus” (Misericordiae Vultus, 1).
A palavra Misericórdia tem origem no latim, e deriva dos termos Miserere (Clemência, Piedade, Compaixão) e Cordis (Coração). Logo, Misericórdia significa um coração clemente, piedoso, compassivo. Misericórdia “é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida.” (Misericordiae Vultus, 2).
No entanto, quando se olha para o contexto em que vivemos, repleto de discursos de ódio, intolerâncias, ganâncias e individualismos, fica difícil enxergar a compaixão, a clemência, a piedade. Almas humanas são feridas e mortas pela falta da misericórdia.
Diante deste horrendo quadro, não há como deixar de se indagar: Onde está a Misericórdia?
Nas redes sociais da internet, na televisão, nas igrejas, comunidades, nas escolas, nas Universidades. Aonde quer que se vá, o que se vê é uma confusa guerra ideológica onde a vida perde seu valor para os interesses particulares de cada indivíduo. No oriente médio, nos países do norte da África, na Europa, se segue a Guerra Santa, a guerra ao terror, os conflitos entre filhos de Deus. Nesses lugares, é cultivado o preconceito e a intolerância contra refugiados e estrangeiros.
No Brasil, a guerra é política e social, onde os exércitos se dividem entre esquerda e direita; elite e povo; governistas e oposição; corruptos e honestos. Em cada conflito, se perde o respeito pela liberdade do outro. Os corações se mostram frios, duros, rancorosos. Basta um pequeno comentário, ou clique, em uma rede social, para que brotem, como mato, os discursos discordantes e condenatórios, repletos de ódio e repulsa.
Estes comportamentos não são privilégios de anticristos, satanistas, ou ateus.
Mas brotam de corações cristãos que, mesmo com tantos exemplos e textos inspiradores, são incapazes de sentir piedade ou compaixão.
Mas, apesar de todo este cenário de horrores, ainda é possível manter acesa a chama da esperança, acreditando que, com um esforço coletivo e sincero, possamos reeducar a humanidade, para que as futuras gerações não carreguem em seus corações a dureza e a frieza que carregamos em nosso tempo.
Na contra-mão desse desenvolvimento sombrio, o chefe da Igreja Católica convida os cristãos a voltarem os olhos para dentro dos corações e procurar, lá dentro, qualquer resquício dos bons sentimentos. Exercitar o perdão nos ajuda a caminhar no rumo certo. “O perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração.
Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança, são condições necessárias para se viver feliz” (Misericordiae Vultus, 9). A História humana é repleta de exemplos, que nos inspiram, e que nos ensinam. São Francisco de Assis, Madre Teresa, Dom Luciano, São João Paulo II, São João XXIII. Todos exemplos de misericórdia, perdão. João Paulo II, chegou ao ponto de ir até a prisão para visitar e dar o perdão ao homem que tentou tirar a sua vida. Madre Teresa, que apesar de inúmeras vezes sofrer insultos, tolerava tudo com amor e paciência. São Francisco, que ensinava seus irmãos a serem mansos de coração e a seguir suas vidas conforme o Evangelho de Cristo. Dom Luciano, sempre surpreendia a todos com seu sorriso, sincero, e repleto de paz!
E para os jovens e futuras gerações, não faltam esforços para ensiná-los. A Jornada Mundial da Juventude nos deixou riquíssimos textos, entre eles o YouCat, O Catecismo Jovem, que em um de seus parágrafos, nos apresenta o seguinte texto: “As obras de misericórdia Espirituais são:
1º – Dar bom conselho;
2º – Ensinar os ignorantes;
3º – Corrigir os que erram;
4º – Consolar os tristes;
5º – Perdoar as injúrias;
6º – Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
7º – Rogar a Deus pelos vivos e defuntos.” (Youcat, 451).
Destas 7 obras de misericórdia espiritual, a 5ª e a 6ª chamam atenção, pelo fato de, muitas vezes, serem esquecidas na nossa vivência comunitária! Faltanos a paciência, para perdoar as injúrias e suportar as fraquezas de quem está próximo. E para além dos textos pontifícios, e textos de autoridades eclesiásticas, não faltam orientações nas sagradas escrituras. Os Evangelhos são repletos de trechos que enaltecem a importância da misericórdia, como as
Bem Aventuranças (Cf. Mt 5, 3-11), no Evangelho de Mateus, ou a parábola do Servo Devedor (Cf. Mt 18, 23ss). E até mesmo o Apóstolo Paulo deixou suas exortações sobre a importância de amar e ter compaixão em seu Hino à Caridade (Cf. 1Cor 13).
Se faltassem exemplos e ensinamentos sobre a compaixão, a piedade, o amor, poderíamos justificar os acontecimentos sombrios da atualidade. No entanto, não é justificável. Não há alma que possa dizer que não foi avisada, ou que não foi informada. Mesmo fora das esferas religiosas, existem muitos apelos em prol da tolerância, do respeito e da boa educação. Em sua Bula Misericordiae Vultus, o Papa explica que “(…) a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo de suas víceras.” (Cf. Misericordiae Vultus, 6).
E continua, dizendo que a misericórdia “Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.” (Cf. Misericordiae Vultus, 6). Neste caso, se a misericórdia é concreta e natural, por que ela não é encontrada em parte alguma? É preciso apresentar a misericórdia ao mundo! E isso é papel de todos que tem a capacidade de amar, de todos que tem a capacidade de aprender.
Abraçar o projeto de Cristo, viver o Ano Santo da Misericórdia, para fazê-la aparecer em todos os cantos, para que não seja mais necessário perguntar onde ela está!

Por: Fernando D. Gomide
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